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6.4.14

Entrevista - ELMANO SILVA (MANO)




Por favor, diga seu nome completo, idade, onde nasceu e onde mora atualmente.
Elmano Silva Santos, nasci em 21/04/1942, cidade do Recife-PE. Moro em Joinville/SC.

Qual o primeiro contato que você teve com os quadrinhos?
Desde que aprendi a ler (praticamente sozinho) aos cinco anos de idade. Revistas que meu pai comprava como Tico-Tico, O Malho e os gibis que o meu irmão (seis anos mais velho que eu) também comprava e colecionava, como Fantasma, Edição Maravilhosa, Guri e todas as maravilhosas publicações daquela época de ouro, sem falar dos almanaques nos finais de ano. Eu gostava de colecionar gibis do Tarzan e Fantasma.

Revista MEDO #3,
Press Editorial.


Qual, onde e quando teve sua primeira HQ publicada?
Revista SPEKTRO nº 11 da Editora Vecchi (RJ) em 1979, uma HQ de 12 páginas, “A Vingança de Sinhá Preta”. Após ficar quase 2 anos engavetada pelo editor Otacílio D´Assunção Barros, o Ota, por achar que os leitores não iriam gostar de um gênero que fugia do que era comumente publicado: Drácula, Lobisomem, Múmia, etc. Mas, quando resolveu publicar, numa pesquisa feita na época, o meu nome (ainda assinava Mano) ganhou disparado no gosto dos leitores. 




Você fez algum curso técnico para aprimorar o traço?
Não. Sempre fui autodidata. Em 1974 tentei fazer um curso de Desenho Artístico (no Senac-RJ) mas o professor, que entendia mais de desenho industrial e um outro que era pintor e amigo do professor, ao ver alguns desenhos que fiz numa aula, me aconselhou a continuar o que eu estava fazendo, ou seja, praticar em casa, ao invés de perder meu tempo nesse curso. Daí continuei observando os grandes mestres e lendo livros sobre pinturas, desenhos e tudo que pudesse me ajudar tecnicamente no desenho.

Quais são suas principais influências nas HQs?
Influências acho que nenhuma. Tenho sim admiração pelas técnicas de muitos desenhistas, seja no traço, hachuras, luz e sombra, cores, etc. Posso citar Percy Lau, OswaldoStorni, Hal Foster, Alex Raymond (os mais antigos) e Moebius, Caza, Gal, Hermann Huppert, os mais recentes. Como pode perceber, atualmente curto mais os quadrinhos europeus.

Você produziu muito na época de ouro da HQB (décadas de 70 e 80), em editoras do porte da Vecchi, Press, Maciota e Grafipar. Como era publicar HQ nesse período de recessão econômica?
Era “matar um leão por dia”. Eu havia largado o meu último emprego burocrático (como Assistente Administrativo) num órgão do Ministério da Saúde e, em 1978, tirei a minha carteira de autônomo. O meu chefe achava que eu estava louco. Alternava minha arte no teatro e TV (eu também sou ator profissional) e ganhava uns trocados fazendo retratos de pessoas conhecidas. Esse incentivo veio quando ganhei em 1976 uma Menção Honrosa com dois desenhos que fiz para uma Mostra de Salão de Inverno de Petrópolis (RJ) e uma menção Honrosa num Concurso de Dramaturgia no mesmo ano. Daí passei a acreditar que o meu caminho era a arte.


Você saberia responder quanto ganhava naquela época em média (em valores de hoje) por página?
Essa resposta vai ser difícil de responder. Por exemplo, na Vecchi, eu também colaborava para outras revistas dessa mesma Editora. Fiz todas as capas da Killing, uma espécie de fotonovela policial. Ilustrei muitos contos e artigos de publicações como Grande Hotel, Carícia, Jaques Douglas, etc.


Sem desmerecer nenhuma, mas qual editora você mais gostou de trabalhar?
Posso dizer que de todas. Em especial a Editora Vecchi, pelas amizades que fiz com  desenhistas como Julio Shimamoto, Watson, Flavio Colin, Ofeliano de Almeida e as lembranças de uma época também difícil mas, que a duras penas, você conseguia publicar seus trabalhos profissionalmente.

Nossa Senhora Aparecida em Quadrinhos.
Assim como alguns desenhistas das décadas de 70-80, como Rodolfo Zalla e Eugenio Colonesse, você também produziu capas e ilustrações para livros didáticos?
Para livros infantis, não didáticos. Fiz alguma coisa para a Ao Livro Técnico (RJ) e capas e ilustrações para revistas da Embratel. Também em parceria com o Júlio Emílio Braz que fez o texto e eu adaptei para HQs. Para a Editora Vozes (Petrópolis-RJ) ilustrei os álbuns sobre a vida de alguns santos católicos: Nossa Senhora, Santo Antonio e Nossa Senhora de Aparecida.

A nova versão da SPEKTRO,
da Ink Blood Comics.
Sua participação na saudosa revista SPEKTRO era muito apreciada pelos leitores e recentemente Fábio Henrique Chibilski, diretor da Ink Blood Comics, relançou essa revista. O que você acha dessa iniciativa? E teria interesse em participar?
Acho importante. Qualquer iniciativa para lançamento de HQs nacionais, de forma profissional, deve ser feita. Ele havia me contatado para participar, mas infelizmente eu estava numa fase pessoal difícil e falei para deixar para os próximos números. Claro que eu tenho interesse em participar. Gostaria até de saber como foi a aceitação da nova Spektro entre os leitores.

Uma boa fonte de renda dos desenhistas atualmente são as chamadas “comissions” (desenhos feitos sob encomenda). Você venderia algum de seus originais da SPEKTRO ou de qualquer outra revista?
Luiz Gonzaga -
lápis de cor sobre papel.
As "comissions", desenhos sob encomenda, posso fazer, sim, desde que não seja HQs para super-heróis e sem um prazo apertado. Já fiz muitas pinturas e desenhos de retratos como os que postei no Facebook, alternando com a produção de HQs, tudo sob encomenda. Estou na produção do novo álbum do Silas e não espero desviar meu tempo para algo que não compense. Já perdi anos colaborando gratuitamente para produções independentes. Quanto aos originais da SPEKTRO, não tenho nenhum interesse em relançar trabalhos antigos. Todos os originais eu destruí há anos. Tenho todos os exemplares com os meus trabalhos publicados. Fiz muitas mudanças de casa em minha vida e sempre que posso, vou me desfazendo das tralhas. revistas, livros, CDs, DVDs... Quero publicar NOVOS TRABALHOS, minha nova fase...

Uma pena saber que não existem mais os originais. Não ficou nenhum pra contar a história?
A capa do álbum "Os Marginais" acho que essa eu devo ter o original que escapou de ser destruída e a capa de "Silas Verdugo, O Homem do Patuá - A Origem" que é uma tela pintada em acrílico. Dessas duas edições restavam cópias que enviei para a Marca de Fantasia, DEPOIS de ter ido à uma editora em São Paulo e esperado serem publicadas por quase um ano. Senti enrolação do editor que quase não me devolveu o material. Essas cópias não foram destruídas por mim quando as consegui de volta, por causa de minha mulher que escondeu as mesmas e prometeu só me entregar se eu não destruisse esse material. Passada a minha fúria, pensei com calma sobre os meses de trabalho e resolvi enviar para a Marca as xerox dos 2 álbuns que foram publicados. Resumindo, um puta trabalhão que saiu de graça. Entende porque eu cheguei agora à essa conclusão, certo?

Agradeça sua esposa por mim, por ter salvo esses originais, tá (risos)? Falando em Silas Verdugo, o “Homem do Patuá” é um dos seus personagens mais conhecidos dos fãs da HQB. Como surgiu esse personagem?
O Silas Verdugo, em parte, sou eu. Quando jovem, morando no interior de Pernambuco, costumava fazer caçadas com o meu avô, Major Sinval, médico farmacêutico, poeta, figura folclórica de Caruaru, terra dos meus pais. Eu usava uma espingarda de carregar pela boca, simples (às vezes o meu avô me emprestava a dele, de calibre 12) o bisaco, (alforje), chapelão e capa nos dias frios. Quando comecei a produzir HQs, me veio a idéia de um personagem justiceiro na época do cangaço. Como sou ator, resolvi me servir de modelo para ele. O nome Silas veio de um grande amigo, colega de colégio que, após ser preso, sumiu na época da ditadura. É uma espécie de homenagem que presto a ele.

Edição especial do Homem do Patuá,
por Eduardo Cardenas.



Verdugo também teve uma edição especial em formato digital feita por Eduardo Cardenas. Você teve participação nessa obra-homenagem?
Não. Ele me pediu autorização para fazer essa edição. Ontem mesmo me enviou Xerox desse trabalho. Fez uma versão diferente do Silas que eu criei, em termos de narrativa, indumentária, etc. O Eduardo é um desenhista versátil e um grande amigo que conheci no Festival de HQ de Aracaju, para o qual fui convidado e muito bem recebido. Gente legal mesmo!

Seu personagem também teve um álbum publicado pela editora Marca de Fantasia em 2010, na Série Repertório, contando sua origem. Você trabalhou sozinho nessa edição?
Sim. Sempre escrevi os roteiros de minhas HQs. Com exceção de uma edição especial que o Ota publicou  no tempo da Vecchi, sobre Macumba e as vidas de santos pela Vozes, que citei acima nesta entrevista, sempre trabalhei com os meus roteiros. No álbum “A ORIGEM”, publicado pela Marca de Fantasia, que conta como surgiu o Silas Verdugo, o roteiro também é meu. Já estou produzindo “AS BRIGADAS”, que é a continuação desse álbum. Sem prazo para concluí-lo, uma vez que estou fazendo em aguada e isso é uma técnica que requer mais tempo que o desenho feito somente a nanquim.



Outro material interessante é o álbum Os Marginais, que também saiu na mesma Série Repertório, da Marca de Fantasia. Do que se trata esse trabalho?
São duas histórias sobre um marginal chamado Bituca AR15 e outra sobre violência urbana, drogas e essa situação que cada vez vai se tornando pior.

Voltando ao gênero terror, o que era o Trio Diabólico?
O Trio Diabólico ainda É! É formado pela Sinhá Preta, o menino Aparício (protegido da Sinhá Preta também por um forte patuá) e a terrível, indestrutível Besta-Fera, cria do demônio com uma criada de um malvado coronel poderoso. Se você vir esse Trio, mude de caminho e não olhe para trás (risos)!

Trio Diabólico!
Você sempre usou essa temática regional, notadamente a nordestina, em suas HQs, mesmo a contragosto de alguns editores. Porquê?
A contragosto no princípio como expliquei acima. Mudei o gênero de terror no Brasil. Amo de coração o meu nordeste. Vivi parte de minha infância e adolescência no interior do nordeste e convivi com aquele povo e já era de minha natureza observar, escutar histórias, ver os cantadores nas feiras, os personagens mais estranhos e tudo isso me inspirou no futuro. Tem aquela frase do Dostoiéviski: “Quando cantares para o mundo, fala de tua aldeia”. E é justamente isso que eu faço. Pesquiso tudo sobre cangaço, tenho farto material sobre cangaço, folclore nordestino e como já falei, amo o meu nordeste! Mesmo com todos os problemas é rico em seu folclore e arte. As lembranças estão gravadas em minha mente: as caatingas, serrados, barreiros, vegetação, casas por onde pernoitei e, principalmente, o povo daquela época. Hoje, a TV globalizou e acabou com algumas tradições. Há muito artificialismo, infelizmente...

Você chegou a publicar nas revistas da extinta e saudosa Editora D-Arte, do mestre Rodolfo Zalla?
Não me lembro de ter colaborado com a Editora D-Arte. Penso até em fazer um trabalho para o Zalla. O Shima e o Eduardo me falaram para que eu mandasse HQ para ele.

Ainda mantém contato com os profissionais dessa época?
Somente o Shima. Quando vivo e ainda morando no Rio, o [Flávio] Colin me ligava pedindo dicas sobre detalhes de objetos e coisas do Nordeste. Com o Watson [Portela], tivemos  contato por cartas anos atrás.

Saindo um pouco do tema terror, você também fez sci-fi, faroeste e infantil, certo? Cite alguns títulos dessa safra.
Fiz para a Vecchi, na segunda fase da Spektro em 1993, algumas HQs Sci-Fi como “O Lodo da Morte”, “El Justo - O Capitão-do-Mato”, “A Ilha da Agonia”, “A Praga”, “Gosma”, entre outras. Para a Icea, (uma editora de Campinas) fiz “Goran”. Para a Grafipar, “Xendra - A Inseminadora”. No gênero faroeste, “El Condor” para a Press Editorial e para a editora independente  Júpiter II. No gênero infantil publiquei pela Júpiter II quatro números do meu personagem ecológico “Krahomim”, um indiozinho defensor da natureza e dos animais.


Você também acumula muitos prêmios artísticos em salões e convenções pelo mundo afora. Cite alguns.
No Salão Carioca de Humor (RJ) ganhei desde Classificação, Menção Honrosa, Primeiro, Segundo e Terceiro Lugar. Em Portugal, no Salão Moura de Humor, ganhei também duas Menções Honrosas. Ao todo, em meu currículo, tenho dezessete prêmios. O maior de todos para mim é  saber que, com meus trabalhos, conquistei fãs pelo mundo inteiro, até na Alemanha. Isso é que me dá ânimo para continuar essa jornada.

Fora dos quadrinhos você trabalhou para a TV no programa Chico Anysio Show. Conta pra gente sobre esse trabalho.
Como ator (e também cantor profissional) eu havia participado de um musical em 1982 “Mame-o ou Deixe-o” (o título seria “Brasil, Mame-o ou Deixe-o”, mas a censura cortou a palavra Brasil). No elenco estava Alcione Mazzeo, ex-esposa do Chico. Ficamos grandes amigos e, quando seu filho, Bruno Mazzeo, aniversariava eu fazia os convites e ia ao aniversário dele. Em 1985 ela me ligou dizendo que o Chico ia me ligar. Ele queria um desenhista para criar charges, ilustrando as notícias no quadro que ele fazia: Jornal do Lobo. A Kombi da Globo veio me apanhar em casa. Eu morava em Ipanema. Na Cinédia, fui direto para uma sala fazer as ilustrações. Eu havia levado uma bolsa com todo o tipo de material para desenho que eu tinha. Ao sair, ele me perguntou se eu queria fazer o personagem do Kid Farsante, no quadro do Bronco Billy, uma sátira aos filmes de faroeste classe C. Aceitei de cara e comecei a trabalhar fazendo as charges e atuando como o Kid Farsante. Como também escrevo, fiz um texto para o Bronco Billy que o Chico aprovou e mandou gravar. Daí por diante comecei a trabalhar no Chico Anysio Show, como ator, desenhista e roteirista. Foi uma fase legal e mais uma experiência em minha vida. Depois mudei para a Barra da Tijuca e, na época, sem telefone e  distante, fiquei afastado de tudo. Também não quis me tornar ator de um gênero só na TV como também não consigo ficar sem criar minhas HQs, pinturas, etc.

Ultimamente você anda afastado das HQs?
Não estou afastado. Produzi muita coisa para editoras independentes, mas já estou descartando esse tipo de trabalho. Foram quatro experiências desse tipo que nada me renderam, além de ingratidões que já esqueci. Continuo, como já falei acima, trabalhando em novos projetos e espero apenas uma proposta legal para voltar a publicá-los. Sou aposentado por tempo de serviço desde 2003, o que me dá uma certa folga para fazer o que eu quero, o que não podia fazer antes, tipo pintar, me dedicar mais a produzir álbuns sem prazo definido, etc. Enfim, agora sou dono do meu nariz e não quero voltar a “matar um leão por dia” para sobreviver. 
Mané Ula, inimigo mortal
de Silas Verdugo.

Fique a vontade para expressar suas considerações finais.
Gostaria de ver mais leitores interessados em gibis comprados nas bancas e nada virtual. Uso computador para não me tornar um “jurássico”, mas prefiro a revista impressa, com aquele cheiro de gráfica, o prazer de virar as páginas e observar os detalhes sem ter que ficar diante de uma tela. Sobre a entrevista, espero que tenham gostado das respostas. Um grande abraço!

Mestre Elmano, foi um grande prazer conversar com você e saber um pouco mais sobre sua vida. Muito obrigado!



Facebook de Elmano Silva.
"Silas Verdugo, O Homem do Patuá - Sertões de Fogo", de Eduardo Cardenas.

23.3.13

Entrevista: LANCELOTT



Apresente-se aos leitores dizendo seu nome, idade, onde nasceu e onde mora atualmente. 
Bem, sou Lancelott,  nascido Bartolomeu Martins. Sou “filho sol do equador”, piauiense de Parnaíba.

Como todo fã de HQs, você também começou a ler quadrinhos na infância?
Sim. Chego a dizer que foi minha escola. Nos quadrinhos aprendi a sonhar, imaginar, enfim a exercitar a mente criativa e não fui desvirtuado como se aplicaria à teoria de Whertam. Conheci Alex Raymond, Bob Kane, Lee Falk e me encantei com a arte sequencial. “Batimão” e “Rubinho” foi como ouvi antes de ler Batman e Robin, por uma senhora que as lia para mim e meu irmão.

Quais títulos te marcaram nessa época?
Flash Gordon, Jim das Selvas, Mandrake, Fantasma, Tarzan e Batman.

Os quadrinhos eram acessíveis onde você morava?
Não. Na verdade morávamos em uma área ribeirinha afastada da cidade, mas uma senhora de meia idade, Dona Luiza, comprava estas revistas, levava de presente e as lia à noite (lembro com saudade...).

Acervo pessoal e fonte de pesquisa de Lancelott.
Além de um ótimo desenhista você também escreve roteiros?
Desenhar era coisa de pequeno. No colégio já fazia as “capas de provas” de final de ano com imagens de Tarzan, Fantasma, Batman e cobrava dos colegas (hehehe!!!). Escrever foi uma decorrência de ler muito Machado de Assis e outros autores. Com o tempo passei a trabalhar para uma biblioteca e fazia resenhas de livros e ganhei o gosto para “inventar” histórias e sim, respondendo, escrevo.

Já teve trabalhos publicados em revistas no Brasil ou fora dele?
Não. Sempre desenhei mas nunca participei de qualquer publicação de grande circulação. Nos tempos de universidade fazia muitas ilustrações para livros de poesias, cartazes e publicações locais, quadrinhos institucionais, coisas assim... Enviei alguns trabalhos para a Editora D-Arte, do Rodolfo Zalla, mas não agradei. Também, não tinha técnica nenhuma, sempre fui autodidata.

E os fanzines, também atuou nesse meio?
Ah, os fanzines! Este foi o meu meio de expressar minha paixão por quadrinhos na década de 80. Mas fazer fanzines naquela época era mais paixão mesmo do que pensar em retorno financeiro, isso não existia! Tinha o QUERELA, onde publicávamos vários personagens, dentre eles EXU e SETE ESTRELAS. A publicação era mais voltada para a cultura regional, lendas e crenças. Esse fanzine, se me lembro bem, acho que ultrapassou umas 36 edições. Pena que eram de pouca tiragem e distribuídos de graça ou trocados por papel “chamex”... O zine era feito “cladestinamente” numa gráfica em que eu trabalhava (eheheh!!!), duplicado no “stencil”, coisa artesanal mesmo - papel, cola, tesoura e grampeadores. Lembro que na época cheguei a trocar zines com Joacy Jamys*, do Maranhão, mas ele se mandou cedo pro outro lado...

Vi no teu blog termos como “Orun”, “Aye” e menções a Maçonaria. Além do mais, teu personagem, Exú, é baseado no candomblé. Você é um cara espiritualizado, segue alguma doutrina ou religião? E como isso influi nas suas HQs?
Na verdade uma das minhas formações superior é Teologia (tinha um lance de querer ser frade, mas usar “saia” não bateu legal, ahahah!!). O Candomblé é uma vertente espiritual que muito me seduz e EXÚ nasceu dessa interação. Vi o tratamento do ser espiritual de EXÚ muito satanizado na cultura de um modo geral, advindo, claro, da nossa colonização cristã e resolvi resgatar sua verdadeira origem, na africana ancestralidade, dos Orixás como seres de uma crença de fé dos homens pretos... 

Aproveitando a deixa, conta pra gente sobre esse teu personagem, Exú.
Muito do quadrinho publicado no mundo inteiro sempre fez abordagens a deuses brancos e loiros e resolvi resgatar um preto para contrapor o peso da balança, por que não (hahaha!!!)? Um Orixá! Claro, não foi muito bem recebido, mesmo no zine... mesmo assim, desenhei muitas historias onde o principal eram suas andanças pelo muito dos seres físicos. Neste contexto, fazia sempre uma alusão a todo o Panteão Afro. Uma pena que eram de pouca tiragem e não me restou sequer uma edição impressa pois tive que fazer concursos, trabalhar e deixei de fazer quadrinhos marginais.

Já o Sete Estrelas tem uma verve mais nordestina, com origens no sertão.
Cordel... Aquela coisa da mítica do caboclo acreditar no fantástico, onde sua visão é mais onírica, mais colorida, mas distorcida do real convencional, mais simples e mais particular... SETE ESTRELAS foi nascido desta senda. O personagem aparecia no zine em contos ilustrados sempre envolto com o fantástico: almas, bois-da-cara-preta, cabeças de cúias, estrelas e diabos..




Agora, na minha opinião, o seu personagem mais interessante é o Catalogador. Quem é ele e como surgiu?
O CATALOGADOR? Parece até egocentrismo não é? O personagem foi uma decorrência de minha atividade de “catalogar” personagens brasileiros. A idéia com o Catalogador era possibilitar encontros com outros heróis brazucas de universos independentes diferentes sem muita explicação e/ou explicar origens, enfim, estas coisas. O personagem é aberto a todos os autores para o utilizarem em suas criações. Seria uma entidade supra temporal, cósmica (cacete... hahaha!!) que teria esse fim. O personagem surgiu no Facebook, como forma icônica mesmo, e depois de muitos pitacos dos amigos Lorde Lobo, Ataíde Braz e por fim quando o Sergio Oliveira do zine Fábrica de Monstros publicou uma HQ dele, oficiou a sua aparição, vamos dizer, física.

E quem (ou o que) são os Bengalas Boys?
Os Bengalas Boys (hahahahah!!!)?! São os Bengalas Boys! Cara, foi uma brincadeira no Facebook quando resolvi provocar a velha guarda: Tony Fernandes, Ataíde Braz, Wilde Portella, Fernando Ikoma, Alvarez, A. Moreira, Moacir Torres, Décio Ramirez, Minighthi (nunca sei escrever o nome do MINI), Airton Marcelino, Seabra, Jodil, Jolba e muitos outros. Então criei um avatar com as características de cada um. Enfim, era uma alusão a velhos autores de quadrinhos, desenhistas e fãs... OS BENGALAS BOYS! Eram homens de um mundo onde a fantasia era criada pelo simples toque da mente. As criações fantásticas de suas mentes povoaram um mundo de impossíveis possibilidades, os quadrinhos! Agora eles estão no Universo dos Quadrinhos, uma dimensão onde criadores e criaturas se tocam, mas com um detalhe: eles não sabem quem são! O ápice deste encontro deu-se no Velho Oeste (hahahahaha!!!!). Escrevi um roteiro, o Airton Marcelino desenhou e foi publicado virtualmente pelo FARRAZINE. O nome veio de uma banda do Tony Fernandes, quando ele fumava e bebia (hahaha!!!). Ah, tem também a ver com a meia-idade do grupo.


E como começou esse trabalho hercúleo de catalogar todos os personagens nacionais no blog HQ Quadrinhos?
Bem, depois do final dos anos 80 fui trabalhar e me afastei dos quadrinhos e com minha aposentadoria, 30 anos depois, voltei para minha paixão e a rabiscar, mas sem clima para sequenciar, fazendo somente pin-ups para o meu blog, HQ Quadrinhos. Comecei a pesquisar sobre quadrinho brazuca e nada ou pouca informação encontrava na web, então resolvi fazer resenhas mnemônicas sobre personagens e publicar para registro e como tributo aos autores. Fiz um Catálogo de Heróis Brasileiros sem qualquer intenção acadêmica, registrando personagens de todo canto do Brasil, mesmo os chamados “marginais”, sem grande divulgação, mas que representam a vontade do quadrinista de materializar sua criação, quer seja em zines, web-zines, fanpages, etc., se configurando um grande Universo Independente, com incomensurável potencialidade se bem gerido. Este livro virtual, hoje, tem pra mais de 2.000 downloads!

Saberia dizer quantos já foram catalogados até a publicação dessa entrevista?
Não sei ao certo... Tenho aqui uma infinidades de informações preciosas que vão desde 1907, como o Dr. Alpha, um astronauta brasileiro que fazia viagens interplanetárias e tinha um traje de sustentação vital (publicado no Tico-Tico), até os dias atuais... Talvez umas 600 pastas de arquivos. Na verdade acho que estou precisando de mais tempo (hahahahh!!)... Tenho que rastrear publicações antigas e acessar, por exemplo, bibliotecas de jornais, etc...


Dentre tantos personagens, apenas uma pequena parcela conseguiu ser publicada oficialmente e reconhecida pelos leitores. Isso tem a ver com a qualidade do material, publicidade, empatia ou o que?
É verdade... Mas isso tem a ver com a realidade e a fantasia. Muita coisa que temos no “Universo Independente” é um sonho. Poucos desses sonhos tornam-se realidade com o esforço hercúleo de produzir um quadrinho físico com todos os seus custos e ônus e ainda bancar a distribuição. Muito difícil... Temos bons roteiristas e bons desenhistas. Temos um dos maiores mercado do mundo para esta mídia impressa mas não temos organização e/ou oportunização a estes prováveis valores... A exemplo, muitos estão no mercado americano.


Você também cataloga personagens gringos da Era de Ouro no blog Golden Age. Porque?
Os comics foram meu berço, creio, como a maioria dos brasileiros. E esta paixão pelo quadrinho de um modo geral, extrapola! Comecei o blog com estes personagens gringos até para “chamar” a atenção dos web-leitores e depois criei um blog específico para os quadrinhos da Golden Age americana.

Você disponibilizou para download gratuito em teu blog uma coletânea com centenas de HQs do saudoso mestre Flávio Colin. Com certeza um dos trabalhos mais importantes em prol do resgate da HQ nacional.
Falta no Brasil um resgate à memória destes artistas que, podemos dizer, foram os desbravadores de nossa assinatura nos quadrinhos. Abrimos a série com Flávio Colin que é emblemático, cheio de brasilidade, inclusive no traço a lá “entalhe de cordel”, algo sui generis... É uma série free para mais de 5 volumes sobre ele. Tenho pra mais de 600 páginas pesquisadas/trabalhadas.  É mais um resgate e tributo a este autor maravilhoso que partilho sem nenhum custo aos amigos. Espero que um dia alguma editora e/ou editor possa nos possibilitar algo impresso, pois este meu trabalho é apenas de divulgação, sem qualquer outro compromisso que não seja a memória do artista.

Página de Julio Shimamoto.
Seria legal termos mais trabalhos assim com outros grandes nomes da HQB como Rodval Matias, Watson Portela, Edmundo Rodrigues...
Até penso em fazer e já tenho alguns arquivos separados do Júlio Shimamoto e conto com a ajuda do Alan Bispo e do Paulo Castilho, dois grandes amigos e possuidores de grandes acervos digitais. Aguardem!

De uns tempos pra cá os artistas da HQB começaram a desenhar cada vez mais para o mercado exterior, aprendendo novas técnicas e estilos. Na sua opinião, isso é bom para os quadrinhos nacionais?
Bom, muito bom! Temos valores pra exportar, o que nos credencia e nos possibilitaria, se bem gerido nosso mercado, mão-de-obra qualificada.

No teu Facebook você postou xilogravuras usadas na literatura de cordel. Já escreveu algum?
Especificamente cordel, não. As xilogravuras, bem antes, no tempo dos fanzines, eram fontes de inspiração para os contos e artes do vaqueiro semi-morto Sete Estrelas.

Desenhista, roteirista, catalogador e ARQUEIRO nas horas vagas! Conta pra gente como surgiu esse amor pelo arco e flecha.
Hahahaha!!! Saca o lance dos Poetas Mortos?! Pois é, erámos apenas três arqueiros em nossa cidade e nos auto-denominamos Sociedade dos Arqueiros Mortos. Éramos vidrados no Arqueiro Verde, e ainda hoje, quando nos encontramos, nos chamamos mutuamente de Oliver (ahahah!!!!). Infelizmente, um dos membros da Sociedade já foi para os campos verdejantes de caça...

Lancelott, fique a vontade para mandar um recado aos seus colaboradores e aos leitores do blog.
Bem, eu tenho uma grande dificuldade em conseguir informações, mesmo dos autores mais novos e vivos sobre personagens publicados (em qualquer mídia), e aproveito a deixa do TINTA NANQUIM para deixar meu e-mail, scanscomics@gmail.com, para os colegas me enviarem imagens, textos, releases e também contribuições sobre personagens antigos e obscuros de nosso quadrinho, que não são conhecidos do grande público.

Lancelott e a "prata da casa".
Ciente da importância do seu trabalho para o resgate e disseminação dos grandes nomes que fizeram e fazem a HQB, o Tinta Nankin agradece a paciência e dedicação com que você nos cedeu essa entrevista.
Na verdade, quem agradece sou eu. Sou apenas um aficcionado pela Arte Sequencial Brasileira, mesmo as denominadas marginais (publicadas nos fanzines, zines, web-zines, independentes e autorais) e as oficiais, publicadas em mídias de grande circulação. Acho pertinente este trabalho do TINTA NAQUIM pelo amigo Rom Freire, que também mostra a cara do Brasil e tributa neste formato um grande preito de gratidão aos autores, desenhistas, escritores, roteiristas, pesquisadores e fãs. Obrigado pela oportunidade!

___________________________________
* Joacy Jamys foi um quadrinhista, cartunista e fanzineiro de grande projeção no Brasil e no mundo. Morreu em 2006, vítima de um AVC. Mais detalhes sobre ele aqui.

E-mail de contato: scanscomics@gmail.com.


18.3.13

Entrevista: RAFAEL TAVARES



Pra começar diga seu nome, idade, onde nasceu e onde mora atualmente.
Rafael Tavares, 31 anos, nascido em Fortaleza no Ceará, onde permaneço vivendo!!

Primeira capa d´Os Invictos, no traço
do próprio Rafael Tavares (anos 90).
Como e quando surgiu esse amor pelas HQs?
A origem de tudo foi decorrência do meu fascínio pelos personagens fictícios que conheci através dos desenhos animados!! Uma vez cativado pelos personagens foi uma alegria saber que eles também estavam em histórias em quadrinhos, na verdade, na maioria dos casos, eles se originaram ali!! Isso tudo foi durante a infância!!

Tem mais alguém na família que curte quadrinhos?
Boa pergunta!! No meu núcleo familiar não!! Na verdade nunca fui considerado muito normal na casa dos meus pais por causa do meu amor e dedicação aos quadrinhos!! Meus pais sempre me amaram, mas nutriam a ideia que a maioria compartilha de que quadrinhos é um passatempo e nada mais!! Felizmente minha esposa me compreende e me ama do jeito que eu sou!! Sei que tenho alguns primos que curtem um pouco de quadrinhos, mas nunca se arriscaram a produzir algo como eu faço!!

Você também desenha ou apenas escreve roteiros?
Desenhava muito pouco e hoje faz tempo que não pego em um lápis para esse fim!! Procuro me especializar nos roteiros e quero ficar bom nisso!! Também sou editor das revistas que lanço!!

Aqui no Brasil, quais são suas principais influências?
Além dos mestres do passado que deixaram o seu legado para nós, admiro todos aqueles que vêm conseguindo dar continuidade com seus projetos de quadrinhos!! Muita gente boa está tentando e conseguindo lançar materiais de qualidade, e as pessoas precisam se dar conta disso!! Todos servem de exemplo para me inspirar em dar minha contribuição com minhas histórias!!

Qual o primeiro personagem que você criou?
Foi o Pétreo, o Indestrutível!! Tinha 13 anos de idade na época e ele era um pouco diferente de como é hoje, mas não tão diferente assim!! Até hoje ele continua sendo de extrema importância para o Universo ficcional que desenvolvi!!

Como é a cena quadrinhística independente aí em Fortaleza?
Poderia estar melhor em termos de quantidade de títulos lançados, mas estamos tendo ganhos muito positivos de outras ordens!! Os artistas vêm se mostrando mais empenhados em trocar ideias e compartilhar experiências e conhecimentos!! O surgimento da Gibiteca Municipal de Fortaleza há quatro anos foi um importante elemento para esse entrosamento maior, que antes não era tão eficiente como se revela hoje!! O interesse por eventos para as histórias em quadrinhos está se consolidando cada vez mais e acredito que dentro desse novo cenário que está se desenhando em um futuro próximo teremos um aumento na produção de títulos para todos os gostos!!



Adriano Sapão e seu presente
de aniversário.
Quais seus principais colaboradores?
Considero qualquer um que fizer uma arte relacionada ao Universo Invictos um colaborador, pois despertar o interesse de alguém para uma produção nacional do gênero de super-heróis é algo muito positivo!! Temos muitos e incríveis talentos no nosso país, alguns com grande potencial, requerendo apenas mais tempo para atingirem seu ápice!! Tive a alegria de contar com grandes talentos em projetos meus!! Considero todos relevantes!! Agora alguns artistas atuaram mais frequentemente, como o caso do meu amigo Adriano Sapão que conheço desde 1998!! Daniel Siqueira é outro que conheço há bastante tempo, e sua colaboração sempre foi mais de apontar observações e sugestões pertinentes a certos conceitos e construções que eu criava!! Outro importante colaborador que posso mencionar é o talentosíssimo José Luís, um artista internacional que tem muito apreço pelo surgimento de um mercado de quadrinhos mais próspero no Brasil, e além de ser um amigo que prezo bastante, ele ainda guarda um grande carinho pelos Invictos!! Alzir Alves, diretor do Rascunho Studios, também é um indivíduo de crucial importância para os meus projetos mais relevantes, afinal foi através dele que conheci o fantástico Renato Rei que vem marcando presença em produções minhas de caráter mais especial!!

Arte: Ediano SIlva. Cores: Alzir Alves.
Dos novos talentos que você conhece e apoia, quais você destacaria?
Posso mencionar o próprio Renato Rei, um artista jovem, mas com um trabalho riquíssimo e que vem conquistando o espaço e atenção que merece!! Netho Diaz é outro jovem talento que torço bastante para encontrar seu lugar dentre as grandes editoras!! Ediano Silva é um que não poderia deixar de mencionar, pois tenho grande simpatia por seu trabalho que é de encher os olhos!! Leonardo Rocha é um artista que acompanho sua evolução artística há bastante tempo e sempre tive certeza de seu potencial que hoje está sendo moldado com muito treino e aprendizado de qualidade garantindo um aperfeiçoamento invejável!!

Olhei no seu perfil uma foto que fazia referência a uma certa HQ-Force. Seria um grupo de quadrinhistas da sua cidade?
Muito observador e a pergunta faz todo sentido, mas o HQ-Force na verdade é um grupo de amigos colecionadores de revistas em quadrinhos que anualmente se reúne para um tradicional amigo secreto com trocas de HQs!! É sempre um momento muito divertido e que já ocorre há aproximadamente dez anos!! Apesar de não nos encontrarmos mais vezes ao ano, todos fazem questão de marcar presença no evento!!

HQ-Force 2012.

Explica pra gente o que é exatamente o Projeto Continuun.
Projeto Continuum é uma publicação que acabou virando um selo de quadrinhos independentes!! O projeto surgiu das vontades de Daniel Siqueira, Adriano Sapão e eu de termos um espaço para contarmos as nossas histórias e apresentarmos nossos personagens!! Claro, desde o início intencionávamos abrir espaço para que outros artistas também pudessem mostrar seus materiais!! A primeira edição da Projeto Continuum foi lançada em setembro de 2004 e contou com nove edições lançadas até o momento, uma edição especial e três edições com o subtítulo Extra!!  Foi evidentemente um processo de aprendizado importante e uma experiência valiosa que nos conectou com diversos artistas de todo o país, uma vez que contamos com vários colaboradores ao longo dessas edições!!


Seus personagens mais famosos são Os Invictos. Conta um pouco sobre eles.
Os Invictos pertencem a um futuro onde o Brasil é a maior potência mundial, portanto, o contexto do grupo procura despertar um olhar diferenciado para as possibilidades do nosso país!! Claro que os elementos característicos que definem o gênero de super-heróis estão presentes em sua história e origem, mas existe a possibilidade de se ir um pouco além!! A equipe é composta por amigos que funcionam meio como uma família em função da ligação que possuem desde o passado, quando o nosso planeta foi dominado por um império alienígena!! A sombra desse passado terrível ainda paira sobre a humanidade e a ameaça do retorno dos invasores mantém os Invictos sempre em alerta!!

E você tem intenção de vender os Invictos pra alguma editora nos EUA ou outro país?
No momento isso não me ocorre, até porque a contexto dos Invictos, se passando em uma realidade futura do Brasil, não deve interessar em um primeiro momento a editoras estrangeiras!! Estou interessado em ver os personagens sendo aceitos e conquistando o seu espaço por aqui mesmo!!

Nove entre dez artistas possuem um grupo de super-heróis. Você não acha que a fórmula está gasta, saturada?
Acho que a proporção não seria bem essa, pelo menos se tomarmos como referencial a quantidade de super-heróis criados no Brasil!! A grande maioria constitui-se de heróis solo e não de super-grupos!! Considero até que existem poucos super-grupos brasileiros!! Mas não acho que a fórmula esteja saturada de modo algum!! Na condição de humanos vivemos em sociedade, ou seja, é crucial a convivência e interação com demais indivíduos e isso naturalmente se reflete na ficção!! Super-grupos mostram um pouco disso, dos conflitos e vantagens da vida em conjunto!! E podemos notar facilmente que super-grupos surgidos há muitas décadas continuam fazendo muito sucesso com vendas de revistas e atingindo recordes de bilheteria nos cinemas!!

Quantas revistas você já publicou e quais seus personagens?
O número está por volta de vinte publicações independentes que atuei como editor e produtor!! E a maioria dessas publicações contou com a presença de personagens criados por mim, como Os Invictos, Pétreo, o indestrutível, Soturno e Aborígene!! Ainda conto com outras criações que estão prestes a aparecer em novas publicações!!

E a aceitação dessas revistas por parte dos leitores, é boa?
Todas essas publicações foram produções independentes, logo a aceitação do leitor é um processo gradual!! À medida que vamos tornando os personagens mais conhecidos, possibilitando a maior presença de títulos, oferecendo um material impresso mais apresentável, o leitor vai se sentindo mais atraído e vai se despindo dos preconceitos que nem sabe bem por que nutre a respeito dos quadrinhos nacionais!! Esse processo também nos permite amadurecer como editor, contador de histórias, e os leitores se beneficiam com isso naturalmente!! Recentemente promovi o lançamento da primeira edição de uma minissérie d’Os Invictos, uma publicação com acabamento de primeira, com artistas profissionais cuidando da arte, um trabalho gráfico profissional, e tudo isso vem repercutindo em uma ótima aceitação por parte dos leitores!! Aqueles que conheceram meu trabalho em fanzines e prozines agora estão tendo uma nova experiência, e isso vem atraindo ainda mais olhares além dos de costume!! Um material mais profissional desperta maior interesse do seu público alvo!!

Como todo artista nacional com certeza você já se deparou com pessoas que adoram falar mal do quadrinho nacional. Você acha que todas essas críticas procedem?
Sou da crença que apenas falar mal ou criticar negativamente não leva a nada, não muda nada!! É notório que os quadrinhos nacionais encontram e possuem desvantagens históricas e culturais, mas procuro ver além dos problemas, até porque o cenário não é mais o mesmo de antes e coisas boas estão acontecendo!! Infelizmente algumas pessoas não se interessam ou tem receio de enxergar além daquilo que se sentem confortáveis enxergando e acabam por perder e deixar de contribuir com as mudanças que já se percebem!!

Rafael Tavares, José Luis e o original da capa dos Invictos.
Raramente se vê críticas construtivas sobre os desenhos nas redes sociais. Geralmente lê-se apenas “parabéns”, “ótimo trabalho”, etc. Isso ajuda ou atrapalha na formação de novos artistas?
O artista possui a necessidade natural de mostrar aquilo que produz com o intuito de provocar uma reação em quem vê o seu trabalho, por essa razão o espaço possibilitado pelas redes sociais para isso é muito válido!! Agora o artista precisa ter o discernimento e auto avaliar seu trabalho de acordo com seus objetivos para trilhar o melhor caminho para atingi-los!! O artista que possui essa maturidade de pensamento irá se beneficiar dos comentários diretos e elogiosos de suas postagens nas redes sociais, mas saberá também que precisa encontrar um meio de superar suas deficiências artísticas!! Alguns optam por conta própria exercitar sua percepção mediante observação e estudos, outros preferem entrar em contato com artistas mais experientes que estejam dispostos e com tempo para compartilhar um pouco de sua experiência adquirida!! Isso vai muito de cada um, mas aquilo que é indispensável a todos é a dedicação à prática, é preciso se praticar muito!!

Arte: Óqui  -  Cores: Alzir Alves.
Alguns artistas nacionais tem fama de não aceitarem críticas. O que você acha disso?
As críticas propriamente ditas, ou seja, aquelas com fundamento, não devem ser ignoradas!! Podem não ser fáceis de serem recebidas em muitos casos, mas se tiver valor diante da possibilidade de melhoramento de algum aspecto do trabalho deve sim ser refletida por parte do artista!! O artista precisa sempre estar se questionando sobre o seu trabalho,  sem permitir é claro que esses questionamentos o impeçam de seguir produzindo, e as críticas de valor podem muito bem apontar boas soluções!! O artista que não se permite tais reflexões, avaliando se aquilo que foi dito pode ou não beneficiar o seu trabalho, está na verdade desmerecendo o seu próprio trabalho!!

Na sua opinião, o que pode ser feito para a profissionalização do artista e do mercado nacional de HQs?
Aquilo que norteia qualquer aspecto do conceito de profissional, seriedade e respeito!! O artista precisa se levar a sério ao ponto de se direcionar para cumprir o que for necessário para atingir os seus objetivos, ou seja, praticar muito e melhorar sempre mais!! Por outro lado essa seriedade não pode provocar deslumbramentos no próprio artista, afetando a sua percepção referente ao seu trabalho e sua importância, e comprometendo as relações com os demais inviabilizando oportunidades de trabalho, o que nos leva a uma das manifestações da presença necessária do respeito!! Os mesmos parâmetros servem para o mercado, só que sua natureza é distinta, tudo se configura com uma amplitude muito maior, e algumas vezes as relações de trabalho podem se configurar de forma desleal, mas ainda assim seriedade e respeito devem ser sempre considerados!! Somando isso com trabalhos cada vez melhores, artistas preparados e profissionais e a aceitação e boa utilização das novas mídias que surgem, creio que os empecilhos serão devidamente superados!!

Sandro Marcelo apreciando seu exemplar de Os Invictos.
Com quais artistas de outros estados, que também publicam de forma independente, você tem contato/amizade? E o que eles acham do seu trabalho?
Felizmente muitos, embora por questão de tempo não seja possível me comunicar com maior frequência com a maioria deles!! Mas posso citar Mario Cesar Silva de São Paulo, importante colaborador do Projeto Continuum e editor de algumas publicações dentre elas o zine Insistência, Samuel Bono, outro importante amigo de São Paulo que colaborou com o Projeto Continuum e Os Invictos, Angelo Ron que vive em Belo Horizonte e já colaborou com diversas publicações e sempre foi muito importante para Os Invictos, LordeLobo do Rio Grande do Sul responsável pelo personagem Penitente que possui uma ótima publicação, Alan Yango do Pará e criador e responsável pela revista do Maximus, Sandro Marcelo de Pernambuco e editor da revista Campana, MarcosFranco criador da personagem Penitência!! A lista para minha alegria não para por aí, com Jackson Gebien, Will, Eloyr Pacheco, Lancelott, Lucas Ed, MarcosGratão, Lucasi, dentre outros!! E acredito que todos tem apreço pelos meus projetos e personagens, uma vez que sempre me apoiaram e contribuíram de alguma forma comigo!!

Arte: Renato Rei  -  Cores: Alzir Alves.
Agora a pergunta que não quer calar: dá pra ganhar grana publicando trabalhos próprios aqui no Brasil?
Bem, esse ainda não é o meu caso!! Em se falando de artistas profissionais que já fizeram o seu espaço e nome é pouco provável que não venham obter prestígio, inclusive financeiro, com a publicação de trabalhos mais autorais!! Histórias em quadrinhos são um produto alvo de comercialização com o intuito de auferir grana, e isso não seria diferente aqui no Brasil!! Uma publicação dotada de apelo para determinado público e encontrando os meios de chegar até este público pode se reverter em um grande negócio como outro qualquer!! Mas aqui no Brasil existem muitas lacunas que precisam ser preenxidas para uma publicação se tornar algo rentável, e nem todos dispõem dos meios para lograr êxito!! Essas lacunas são as mais diversas e algumas delas envolvem a falta de capital para investir e distribuição!! Para muitos quadrinistas independentes já seria uma vitória a conquista do financiamento de seus projetos com o dinheiro das vendas, mas na maioria dos casos nem isso é possível!! A realidade está mudando, mas ainda irá demorar para atingirmos o objetivo ideal que é lucrar com nossos quadrinhos, e aqui estou me referindo a grande maioria dos artistas independentes!! Nada é impossível, mas os quadrinhos nacionais ainda estão em um estágio que precisam conquistar a confiança, admiração e interesse do leitor de um modo geral!! Esses passos estão cada vez mais sendo concretizados e precisam ter continuidade, apesar das muitas dificuldades que ainda existem de se oferecer um material de qualidade e com certa periodicidade!! O importante é não desistir e procurar sempre oferecer um trabalho melhor que o anterior em virtude da experiência adquirida!! O artista pode e deve procurar parcerias e editoras quando achar que seu material já possui as qualificações de um produto comerciável, pois quadrinhos foram feitos para serem vendidos e apreciados pelos seus leitores!! No momento estou criando os meios para consolidar esse objetivo, mas, enquanto isso, voltei recentemente a ter um segundo emprego para melhor honrar os compromissos da casa e custear os meus projetos de quadrinhos, claro que isso reduz ainda mais meu tempo para a produção, mas não me impede de seguir em frente!!

Renato Rei satisfeito com seu trabalho em Os Invictos.
Como todo mundo que trabalha no mercado de quadrinhos nacional sabe, fazer HQ independente no Brasil é matar um leão por dia, certo?
Acho que ainda é a realidade de sempre de certa forma e de qualquer lugar do país, embora os computadores e a internet facilitaram em muitos aspectos e permitiram que um maior número de artistas e autores pudessem conferir um caráter mais profissional para suas obras!! Alguns problemas persistem, como a dificuldade da distribuição, captação de recursos, propaganda em larga escala e outras coisas mais!! O cenário dos quadrinhos no Ceará como comentei acima segue com boas e necessárias mudanças que já podem ser notadas e sentidas com otimismo por parte de todos!! Muito ainda precisa ser feito, e existe interesse e planejamento para a continuidade dessas mudanças!! Artistas estão se organizando e efetivamente realizando ações visando novos espaços e conquistas!! O Fórum de Quadrinhos do Ceará é fundamental para isso, bem como a manutenção da Gibiteca Municipal de Fortaleza, local que já mostrou o seu valor para o novo cenário que está sendo desenhado no Estado!!

Muitos artistas Brasil afora, além de produzir HQs, também ensinam a nona arte em escolas e cursos ou usam os quadrinhos como material didático. Você já teve essa experiência?
Ainda não tive experiência como professor, embora simpatize com a ideia de um dia ensinar sobre roteiros!! Mas uma vez fui convidado pela minha namorada, hoje minha esposa, para fazer uma palestra sobre fanzines e quadrinhos quando ela cursava faculdade de História!! Foi algo bem positivo, com interesse e participação dos presentes, e foi justamente discutida a importância dos quadrinhos na educação, coisa que considero realmente positiva e que pode ter um excelente aproveitamento!!

Você acha que os quadrinhos podem ajudar os alunos a assimilarem mais facilmente o conteúdo didático?
Os quadrinhos possuem muitos atrativos, e não apenas para os mais jovens!! Alunos de todas as idades podem se envolver com a leitura de uma HQ e extrair importantes conhecimentos, ensinamentos ou mensagens contidos nela, ali inseridos para um ganho educacional do aluno!!

Invicta no traço de Célio Cardoso.
O mercado norteamericano de comics hoje está aberto para desenhistas do mundo todo. Você acha que os roteiristas também podem chegar lá?
Hoje me concentro nas funções de editor e roteirista, por isso nunca me arrisquei profissionalmente como desenhista ou arte-finalista!! Os comics norte americanos tem por tradição não se interessar por roteiristas de língua não inglesa, por isso a acesso de um roteirista no mercado norte americano é bem difícil!! A falta de tempo é outro fator que impede a dedicação total a produção de histórias, mas o mercado nacional ainda se configura como a melhor opção para o profissional de quadrinhos na função de roteirista!!

E os novos projetos?
Minha meta é dar continuidade e honrar os projetos que já iniciei e anunciei, especialmente a minissérie Os Invictos GÊNESE e a HQ dos Invictos que irá reunir dezenas de super-heróis nacionais, bem como outro projeto importante também reunindo alguns personagens nacionais e que terá como destaque o personagem Catalogador de Universos!! Outras HQs também serão lançadas como um arco de histórias dos Jovens Heróis que está sendo desenhada pelo Adriano Sapão e colorida por Marcos Gratão, um arco dos Invictos na revista Campana de Sandro Marcelo, sendo desenhada por Adriano Sapão e Angelo Ron, uma HQ da Invicta que está sendo desenhada e colorida por Célio Cardoso, e espero que isso seja só o começo de muitas outras aventuras!!

Rafael, foi um prazer recebê-lo no Tinta Nankin. Muito sucesso e que os Invictos e todos os seus personagens continuem honrando a HQ nacional.

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