18.3.13

Entrevista: RAFAEL TAVARES



Pra começar diga seu nome, idade, onde nasceu e onde mora atualmente.
Rafael Tavares, 31 anos, nascido em Fortaleza no Ceará, onde permaneço vivendo!!

Primeira capa d´Os Invictos, no traço
do próprio Rafael Tavares (anos 90).
Como e quando surgiu esse amor pelas HQs?
A origem de tudo foi decorrência do meu fascínio pelos personagens fictícios que conheci através dos desenhos animados!! Uma vez cativado pelos personagens foi uma alegria saber que eles também estavam em histórias em quadrinhos, na verdade, na maioria dos casos, eles se originaram ali!! Isso tudo foi durante a infância!!

Tem mais alguém na família que curte quadrinhos?
Boa pergunta!! No meu núcleo familiar não!! Na verdade nunca fui considerado muito normal na casa dos meus pais por causa do meu amor e dedicação aos quadrinhos!! Meus pais sempre me amaram, mas nutriam a ideia que a maioria compartilha de que quadrinhos é um passatempo e nada mais!! Felizmente minha esposa me compreende e me ama do jeito que eu sou!! Sei que tenho alguns primos que curtem um pouco de quadrinhos, mas nunca se arriscaram a produzir algo como eu faço!!

Você também desenha ou apenas escreve roteiros?
Desenhava muito pouco e hoje faz tempo que não pego em um lápis para esse fim!! Procuro me especializar nos roteiros e quero ficar bom nisso!! Também sou editor das revistas que lanço!!

Aqui no Brasil, quais são suas principais influências?
Além dos mestres do passado que deixaram o seu legado para nós, admiro todos aqueles que vêm conseguindo dar continuidade com seus projetos de quadrinhos!! Muita gente boa está tentando e conseguindo lançar materiais de qualidade, e as pessoas precisam se dar conta disso!! Todos servem de exemplo para me inspirar em dar minha contribuição com minhas histórias!!

Qual o primeiro personagem que você criou?
Foi o Pétreo, o Indestrutível!! Tinha 13 anos de idade na época e ele era um pouco diferente de como é hoje, mas não tão diferente assim!! Até hoje ele continua sendo de extrema importância para o Universo ficcional que desenvolvi!!

Como é a cena quadrinhística independente aí em Fortaleza?
Poderia estar melhor em termos de quantidade de títulos lançados, mas estamos tendo ganhos muito positivos de outras ordens!! Os artistas vêm se mostrando mais empenhados em trocar ideias e compartilhar experiências e conhecimentos!! O surgimento da Gibiteca Municipal de Fortaleza há quatro anos foi um importante elemento para esse entrosamento maior, que antes não era tão eficiente como se revela hoje!! O interesse por eventos para as histórias em quadrinhos está se consolidando cada vez mais e acredito que dentro desse novo cenário que está se desenhando em um futuro próximo teremos um aumento na produção de títulos para todos os gostos!!



Adriano Sapão e seu presente
de aniversário.
Quais seus principais colaboradores?
Considero qualquer um que fizer uma arte relacionada ao Universo Invictos um colaborador, pois despertar o interesse de alguém para uma produção nacional do gênero de super-heróis é algo muito positivo!! Temos muitos e incríveis talentos no nosso país, alguns com grande potencial, requerendo apenas mais tempo para atingirem seu ápice!! Tive a alegria de contar com grandes talentos em projetos meus!! Considero todos relevantes!! Agora alguns artistas atuaram mais frequentemente, como o caso do meu amigo Adriano Sapão que conheço desde 1998!! Daniel Siqueira é outro que conheço há bastante tempo, e sua colaboração sempre foi mais de apontar observações e sugestões pertinentes a certos conceitos e construções que eu criava!! Outro importante colaborador que posso mencionar é o talentosíssimo José Luís, um artista internacional que tem muito apreço pelo surgimento de um mercado de quadrinhos mais próspero no Brasil, e além de ser um amigo que prezo bastante, ele ainda guarda um grande carinho pelos Invictos!! Alzir Alves, diretor do Rascunho Studios, também é um indivíduo de crucial importância para os meus projetos mais relevantes, afinal foi através dele que conheci o fantástico Renato Rei que vem marcando presença em produções minhas de caráter mais especial!!

Arte: Ediano SIlva. Cores: Alzir Alves.
Dos novos talentos que você conhece e apoia, quais você destacaria?
Posso mencionar o próprio Renato Rei, um artista jovem, mas com um trabalho riquíssimo e que vem conquistando o espaço e atenção que merece!! Netho Diaz é outro jovem talento que torço bastante para encontrar seu lugar dentre as grandes editoras!! Ediano Silva é um que não poderia deixar de mencionar, pois tenho grande simpatia por seu trabalho que é de encher os olhos!! Leonardo Rocha é um artista que acompanho sua evolução artística há bastante tempo e sempre tive certeza de seu potencial que hoje está sendo moldado com muito treino e aprendizado de qualidade garantindo um aperfeiçoamento invejável!!

Olhei no seu perfil uma foto que fazia referência a uma certa HQ-Force. Seria um grupo de quadrinhistas da sua cidade?
Muito observador e a pergunta faz todo sentido, mas o HQ-Force na verdade é um grupo de amigos colecionadores de revistas em quadrinhos que anualmente se reúne para um tradicional amigo secreto com trocas de HQs!! É sempre um momento muito divertido e que já ocorre há aproximadamente dez anos!! Apesar de não nos encontrarmos mais vezes ao ano, todos fazem questão de marcar presença no evento!!

HQ-Force 2012.

Explica pra gente o que é exatamente o Projeto Continuun.
Projeto Continuum é uma publicação que acabou virando um selo de quadrinhos independentes!! O projeto surgiu das vontades de Daniel Siqueira, Adriano Sapão e eu de termos um espaço para contarmos as nossas histórias e apresentarmos nossos personagens!! Claro, desde o início intencionávamos abrir espaço para que outros artistas também pudessem mostrar seus materiais!! A primeira edição da Projeto Continuum foi lançada em setembro de 2004 e contou com nove edições lançadas até o momento, uma edição especial e três edições com o subtítulo Extra!!  Foi evidentemente um processo de aprendizado importante e uma experiência valiosa que nos conectou com diversos artistas de todo o país, uma vez que contamos com vários colaboradores ao longo dessas edições!!


Seus personagens mais famosos são Os Invictos. Conta um pouco sobre eles.
Os Invictos pertencem a um futuro onde o Brasil é a maior potência mundial, portanto, o contexto do grupo procura despertar um olhar diferenciado para as possibilidades do nosso país!! Claro que os elementos característicos que definem o gênero de super-heróis estão presentes em sua história e origem, mas existe a possibilidade de se ir um pouco além!! A equipe é composta por amigos que funcionam meio como uma família em função da ligação que possuem desde o passado, quando o nosso planeta foi dominado por um império alienígena!! A sombra desse passado terrível ainda paira sobre a humanidade e a ameaça do retorno dos invasores mantém os Invictos sempre em alerta!!

E você tem intenção de vender os Invictos pra alguma editora nos EUA ou outro país?
No momento isso não me ocorre, até porque a contexto dos Invictos, se passando em uma realidade futura do Brasil, não deve interessar em um primeiro momento a editoras estrangeiras!! Estou interessado em ver os personagens sendo aceitos e conquistando o seu espaço por aqui mesmo!!

Nove entre dez artistas possuem um grupo de super-heróis. Você não acha que a fórmula está gasta, saturada?
Acho que a proporção não seria bem essa, pelo menos se tomarmos como referencial a quantidade de super-heróis criados no Brasil!! A grande maioria constitui-se de heróis solo e não de super-grupos!! Considero até que existem poucos super-grupos brasileiros!! Mas não acho que a fórmula esteja saturada de modo algum!! Na condição de humanos vivemos em sociedade, ou seja, é crucial a convivência e interação com demais indivíduos e isso naturalmente se reflete na ficção!! Super-grupos mostram um pouco disso, dos conflitos e vantagens da vida em conjunto!! E podemos notar facilmente que super-grupos surgidos há muitas décadas continuam fazendo muito sucesso com vendas de revistas e atingindo recordes de bilheteria nos cinemas!!

Quantas revistas você já publicou e quais seus personagens?
O número está por volta de vinte publicações independentes que atuei como editor e produtor!! E a maioria dessas publicações contou com a presença de personagens criados por mim, como Os Invictos, Pétreo, o indestrutível, Soturno e Aborígene!! Ainda conto com outras criações que estão prestes a aparecer em novas publicações!!

E a aceitação dessas revistas por parte dos leitores, é boa?
Todas essas publicações foram produções independentes, logo a aceitação do leitor é um processo gradual!! À medida que vamos tornando os personagens mais conhecidos, possibilitando a maior presença de títulos, oferecendo um material impresso mais apresentável, o leitor vai se sentindo mais atraído e vai se despindo dos preconceitos que nem sabe bem por que nutre a respeito dos quadrinhos nacionais!! Esse processo também nos permite amadurecer como editor, contador de histórias, e os leitores se beneficiam com isso naturalmente!! Recentemente promovi o lançamento da primeira edição de uma minissérie d’Os Invictos, uma publicação com acabamento de primeira, com artistas profissionais cuidando da arte, um trabalho gráfico profissional, e tudo isso vem repercutindo em uma ótima aceitação por parte dos leitores!! Aqueles que conheceram meu trabalho em fanzines e prozines agora estão tendo uma nova experiência, e isso vem atraindo ainda mais olhares além dos de costume!! Um material mais profissional desperta maior interesse do seu público alvo!!

Como todo artista nacional com certeza você já se deparou com pessoas que adoram falar mal do quadrinho nacional. Você acha que todas essas críticas procedem?
Sou da crença que apenas falar mal ou criticar negativamente não leva a nada, não muda nada!! É notório que os quadrinhos nacionais encontram e possuem desvantagens históricas e culturais, mas procuro ver além dos problemas, até porque o cenário não é mais o mesmo de antes e coisas boas estão acontecendo!! Infelizmente algumas pessoas não se interessam ou tem receio de enxergar além daquilo que se sentem confortáveis enxergando e acabam por perder e deixar de contribuir com as mudanças que já se percebem!!

Rafael Tavares, José Luis e o original da capa dos Invictos.
Raramente se vê críticas construtivas sobre os desenhos nas redes sociais. Geralmente lê-se apenas “parabéns”, “ótimo trabalho”, etc. Isso ajuda ou atrapalha na formação de novos artistas?
O artista possui a necessidade natural de mostrar aquilo que produz com o intuito de provocar uma reação em quem vê o seu trabalho, por essa razão o espaço possibilitado pelas redes sociais para isso é muito válido!! Agora o artista precisa ter o discernimento e auto avaliar seu trabalho de acordo com seus objetivos para trilhar o melhor caminho para atingi-los!! O artista que possui essa maturidade de pensamento irá se beneficiar dos comentários diretos e elogiosos de suas postagens nas redes sociais, mas saberá também que precisa encontrar um meio de superar suas deficiências artísticas!! Alguns optam por conta própria exercitar sua percepção mediante observação e estudos, outros preferem entrar em contato com artistas mais experientes que estejam dispostos e com tempo para compartilhar um pouco de sua experiência adquirida!! Isso vai muito de cada um, mas aquilo que é indispensável a todos é a dedicação à prática, é preciso se praticar muito!!

Arte: Óqui  -  Cores: Alzir Alves.
Alguns artistas nacionais tem fama de não aceitarem críticas. O que você acha disso?
As críticas propriamente ditas, ou seja, aquelas com fundamento, não devem ser ignoradas!! Podem não ser fáceis de serem recebidas em muitos casos, mas se tiver valor diante da possibilidade de melhoramento de algum aspecto do trabalho deve sim ser refletida por parte do artista!! O artista precisa sempre estar se questionando sobre o seu trabalho,  sem permitir é claro que esses questionamentos o impeçam de seguir produzindo, e as críticas de valor podem muito bem apontar boas soluções!! O artista que não se permite tais reflexões, avaliando se aquilo que foi dito pode ou não beneficiar o seu trabalho, está na verdade desmerecendo o seu próprio trabalho!!

Na sua opinião, o que pode ser feito para a profissionalização do artista e do mercado nacional de HQs?
Aquilo que norteia qualquer aspecto do conceito de profissional, seriedade e respeito!! O artista precisa se levar a sério ao ponto de se direcionar para cumprir o que for necessário para atingir os seus objetivos, ou seja, praticar muito e melhorar sempre mais!! Por outro lado essa seriedade não pode provocar deslumbramentos no próprio artista, afetando a sua percepção referente ao seu trabalho e sua importância, e comprometendo as relações com os demais inviabilizando oportunidades de trabalho, o que nos leva a uma das manifestações da presença necessária do respeito!! Os mesmos parâmetros servem para o mercado, só que sua natureza é distinta, tudo se configura com uma amplitude muito maior, e algumas vezes as relações de trabalho podem se configurar de forma desleal, mas ainda assim seriedade e respeito devem ser sempre considerados!! Somando isso com trabalhos cada vez melhores, artistas preparados e profissionais e a aceitação e boa utilização das novas mídias que surgem, creio que os empecilhos serão devidamente superados!!

Sandro Marcelo apreciando seu exemplar de Os Invictos.
Com quais artistas de outros estados, que também publicam de forma independente, você tem contato/amizade? E o que eles acham do seu trabalho?
Felizmente muitos, embora por questão de tempo não seja possível me comunicar com maior frequência com a maioria deles!! Mas posso citar Mario Cesar Silva de São Paulo, importante colaborador do Projeto Continuum e editor de algumas publicações dentre elas o zine Insistência, Samuel Bono, outro importante amigo de São Paulo que colaborou com o Projeto Continuum e Os Invictos, Angelo Ron que vive em Belo Horizonte e já colaborou com diversas publicações e sempre foi muito importante para Os Invictos, LordeLobo do Rio Grande do Sul responsável pelo personagem Penitente que possui uma ótima publicação, Alan Yango do Pará e criador e responsável pela revista do Maximus, Sandro Marcelo de Pernambuco e editor da revista Campana, MarcosFranco criador da personagem Penitência!! A lista para minha alegria não para por aí, com Jackson Gebien, Will, Eloyr Pacheco, Lancelott, Lucas Ed, MarcosGratão, Lucasi, dentre outros!! E acredito que todos tem apreço pelos meus projetos e personagens, uma vez que sempre me apoiaram e contribuíram de alguma forma comigo!!

Arte: Renato Rei  -  Cores: Alzir Alves.
Agora a pergunta que não quer calar: dá pra ganhar grana publicando trabalhos próprios aqui no Brasil?
Bem, esse ainda não é o meu caso!! Em se falando de artistas profissionais que já fizeram o seu espaço e nome é pouco provável que não venham obter prestígio, inclusive financeiro, com a publicação de trabalhos mais autorais!! Histórias em quadrinhos são um produto alvo de comercialização com o intuito de auferir grana, e isso não seria diferente aqui no Brasil!! Uma publicação dotada de apelo para determinado público e encontrando os meios de chegar até este público pode se reverter em um grande negócio como outro qualquer!! Mas aqui no Brasil existem muitas lacunas que precisam ser preenxidas para uma publicação se tornar algo rentável, e nem todos dispõem dos meios para lograr êxito!! Essas lacunas são as mais diversas e algumas delas envolvem a falta de capital para investir e distribuição!! Para muitos quadrinistas independentes já seria uma vitória a conquista do financiamento de seus projetos com o dinheiro das vendas, mas na maioria dos casos nem isso é possível!! A realidade está mudando, mas ainda irá demorar para atingirmos o objetivo ideal que é lucrar com nossos quadrinhos, e aqui estou me referindo a grande maioria dos artistas independentes!! Nada é impossível, mas os quadrinhos nacionais ainda estão em um estágio que precisam conquistar a confiança, admiração e interesse do leitor de um modo geral!! Esses passos estão cada vez mais sendo concretizados e precisam ter continuidade, apesar das muitas dificuldades que ainda existem de se oferecer um material de qualidade e com certa periodicidade!! O importante é não desistir e procurar sempre oferecer um trabalho melhor que o anterior em virtude da experiência adquirida!! O artista pode e deve procurar parcerias e editoras quando achar que seu material já possui as qualificações de um produto comerciável, pois quadrinhos foram feitos para serem vendidos e apreciados pelos seus leitores!! No momento estou criando os meios para consolidar esse objetivo, mas, enquanto isso, voltei recentemente a ter um segundo emprego para melhor honrar os compromissos da casa e custear os meus projetos de quadrinhos, claro que isso reduz ainda mais meu tempo para a produção, mas não me impede de seguir em frente!!

Renato Rei satisfeito com seu trabalho em Os Invictos.
Como todo mundo que trabalha no mercado de quadrinhos nacional sabe, fazer HQ independente no Brasil é matar um leão por dia, certo?
Acho que ainda é a realidade de sempre de certa forma e de qualquer lugar do país, embora os computadores e a internet facilitaram em muitos aspectos e permitiram que um maior número de artistas e autores pudessem conferir um caráter mais profissional para suas obras!! Alguns problemas persistem, como a dificuldade da distribuição, captação de recursos, propaganda em larga escala e outras coisas mais!! O cenário dos quadrinhos no Ceará como comentei acima segue com boas e necessárias mudanças que já podem ser notadas e sentidas com otimismo por parte de todos!! Muito ainda precisa ser feito, e existe interesse e planejamento para a continuidade dessas mudanças!! Artistas estão se organizando e efetivamente realizando ações visando novos espaços e conquistas!! O Fórum de Quadrinhos do Ceará é fundamental para isso, bem como a manutenção da Gibiteca Municipal de Fortaleza, local que já mostrou o seu valor para o novo cenário que está sendo desenhado no Estado!!

Muitos artistas Brasil afora, além de produzir HQs, também ensinam a nona arte em escolas e cursos ou usam os quadrinhos como material didático. Você já teve essa experiência?
Ainda não tive experiência como professor, embora simpatize com a ideia de um dia ensinar sobre roteiros!! Mas uma vez fui convidado pela minha namorada, hoje minha esposa, para fazer uma palestra sobre fanzines e quadrinhos quando ela cursava faculdade de História!! Foi algo bem positivo, com interesse e participação dos presentes, e foi justamente discutida a importância dos quadrinhos na educação, coisa que considero realmente positiva e que pode ter um excelente aproveitamento!!

Você acha que os quadrinhos podem ajudar os alunos a assimilarem mais facilmente o conteúdo didático?
Os quadrinhos possuem muitos atrativos, e não apenas para os mais jovens!! Alunos de todas as idades podem se envolver com a leitura de uma HQ e extrair importantes conhecimentos, ensinamentos ou mensagens contidos nela, ali inseridos para um ganho educacional do aluno!!

Invicta no traço de Célio Cardoso.
O mercado norteamericano de comics hoje está aberto para desenhistas do mundo todo. Você acha que os roteiristas também podem chegar lá?
Hoje me concentro nas funções de editor e roteirista, por isso nunca me arrisquei profissionalmente como desenhista ou arte-finalista!! Os comics norte americanos tem por tradição não se interessar por roteiristas de língua não inglesa, por isso a acesso de um roteirista no mercado norte americano é bem difícil!! A falta de tempo é outro fator que impede a dedicação total a produção de histórias, mas o mercado nacional ainda se configura como a melhor opção para o profissional de quadrinhos na função de roteirista!!

E os novos projetos?
Minha meta é dar continuidade e honrar os projetos que já iniciei e anunciei, especialmente a minissérie Os Invictos GÊNESE e a HQ dos Invictos que irá reunir dezenas de super-heróis nacionais, bem como outro projeto importante também reunindo alguns personagens nacionais e que terá como destaque o personagem Catalogador de Universos!! Outras HQs também serão lançadas como um arco de histórias dos Jovens Heróis que está sendo desenhada pelo Adriano Sapão e colorida por Marcos Gratão, um arco dos Invictos na revista Campana de Sandro Marcelo, sendo desenhada por Adriano Sapão e Angelo Ron, uma HQ da Invicta que está sendo desenhada e colorida por Célio Cardoso, e espero que isso seja só o começo de muitas outras aventuras!!

Rafael, foi um prazer recebê-lo no Tinta Nankin. Muito sucesso e que os Invictos e todos os seus personagens continuem honrando a HQ nacional.

Facebook de Rafael Tavares.
Site d´Os Invictos.
Para adquirir sua edição de Os Invictos - GÊNESErafaeltavares@osinvictos.comou pelo site Bodega do Leo.

22.2.13

Almanaque METEORO #4


Acaba de sair o quarto número da revista ALMANAQUE METEORO, estrelada pelo jovem e poderoso super-herói que já cativou os leitores brasileiros. Meteoro, o Mascarado Voador vem com tudo em uma nova aventura repleta de ação, mistério e tramas paralelas que vai te fazer roer as unhas a cada folhear de página.

Em “As afiadas garras da justiça”, além do relacionamento complicado que mantém com seu pai, Roger Mandari – o alter ego de Meteoro – vislumbra, enfim, alguma chance de conquistar o coração de Laura Lopez, a garota mais linda do Colégio Central. Mas isso logo é colocado de lado quando, em missão especial ao Rio de Janeiro, o intrépido herói se vê às voltas com o feroz Guepardo, uma figura quase mítica que ressurge dos “Anos de Chumbo” da história do Brasil em busca de justiça.

Em meio a um dos combates mais ferrenhos das HQs modernas, tendo como palco várias locações da Cidade Maravilhosa (o Cristo Redentor, o Morro da Urca, Copacabana e até mesmo a Rocinha), estreia também um sujeito chamado Repressor, com toda sua truculência, coturno e cassetete.

Destaque para o encontro dos chefões do submundo do crime, Nico Bazzuca e Encapuzado enquanto que, pairando sobre tudo e todos, está o enigmático e manipulador empresário Rex Ninrode. Como não poderia deixar de ser, a trama é escrita por Roberto Guedes, e a arte fica por conta de Fábio Cerqueira. O autor garante que o final é altamente inspirador e emocionante.

Guedes também assina a segunda história “O enigma de Semíramis”, uma superprodução sci fi, com a première do galante Capitão X. Num futuro não tão próximo, uma pequena equipe de pesquisa de Nova Babilônia se depara com o que restou de um satélite natural de Theia, o lendário planeta que se chocou com a Terra no princípio do universo. Mas tudo que o grupo encontra por lá é perigo, terror e morte. Afinal, quem ou quê habita naquele lugar? Desenhos arrojados de Aluísio de Souza com arte-final precisa de André Valle.

A publicação ainda traz a divertida “Chá das cinco”, história backup escrita por Valle e desenhada por William, além das já tradicionais pin-ups, seção de cartas e uma nova coluna, o “Boletim Manifesto”. Diversão garantida para quem curte uma boa leitura e quadrinhos de alta qualidade. Para adquirir um exemplar autografado, escreva para o e-mail guedesbook@gmail.com – mas peça logo, pois a tiragem é limitada.

ALMANAQUE METEORO 4
Guedes Manifesto Produções Editoriais
Blog: http://guedes-manifesto.blogspot.com.br/
Editor: Roberto Guedes
Diagramação: Sandro Marcelo
Formato: 14 x 20 cm
36 páginas – miolo P/B, papel alvo branco
Capa colorida, papel supremo 250 g – arte: Rom Freire (após Ross Andru), cores (Zé Borba)
R$ 10,00 (frete incluso)

11.12.12

Entrevista: ALAN YANGO


Pra começar, nome, idade, onde nasceu e onde mora atualmente.
Alan Souza dos Santos, 39 anos, nascido em Belém do Pará, onde continuo morando.

Quando você começou a ler quadrinhos e qual foi o primeiro que caiu nas suas mãos?
Comecei por volta dos 7, 8 anos. Creio que o 1º que li foi o encontro do Capitão Marvel (Shazam) com o Superman, publicado pela Ebal.

Você também desenha ou só escreve HQs?
Desenho bem pouco, hoje em dia, uns rascunhos aqui e ali. Minhas atividades relacionadas aos quadrinhos hoje em dia são roteiros e a edição da revista do Maximus.

Qual a origem do sobrenome artístico YANGO?
O Yango vem de uma busca que eu fiz por um pseudônimo interessante, isso em meados de 1986. Peguei uma revista da Editora Abril, a Heróis em Ação (n° 1, salvo engano), e tinha uma aventura do Superboy contra um gorila kriptoniano chamado... YANGO (rsrsrs). Desde essa data adotei o sobrenome.

Fala pra gente como surgiu o selo Yangoverso.
O Yangoverso Quadrinhos surgiu basicamente com a ideia de publicar meus personagens. Quero fazer as coisas do modo certo. A intenção é futuramente tornar o selo Yangoverso uma editora de quadrinhos de verdade.
Seu principal personagem é o Poderoso Máximus. Quando e como ele surgiu?
O Maximus foi criado em novembro de 1999. Inicialmente ele era um heroi cômico, coadjuvante de um projeto que eu tinha bolado, algo no estilo dos Simpsons. Tudo foi pra gaveta. Alguns anos depois, revendo alguns rascunhos, achei o do Maximus e só de brincadeira adaptei para um traço mais acadêmico. Gostei, mas engavetei novamente (rsrsrs). Em meados de 2006, salvo engano, comecei a postar meus desenhos em um fotolog. O Maximus teve uma boa receptividade com os visitantes, que começaram a postar fanartes dele em seus blogs. Essas artes podem ser encontradas em outro fotolog que montei especificamente para elas. Um tempo depois resolvi desenvolver uma HQ dele e postei em um blog.  Novamente o pessoal curtiu, então não parei mais. Na verdade só desenhei 2 HQs do heroi, as demais foram feitas por amigos colaboradores, como Márcio Henrique, Emmanuel Thomas, etc...

Quais outros personagens você criou e já foram publicados?
Tenho uma gama de personagens que pretendo publicar. Dos que já foram publicados, quer na web, quer impresso, estão o Sepulcro (que antes se chamava Crepúsculo), que publico no meu blog e já saiu em uma edição da Tempestade Cerebral, revista do amigo Alex Mir e na Ponto de Fuga, daqui de Belém; esta, em sua próxima edição trará HQs do Maximus e do Marginal (um anti-heroi); ainda no blog já publiquei a Defensora (que também foi publicada na Ponto de Fuga, o Caçador Urbano e a vampira Zulla (não relacionada ao núcleo de heróis). Na última edição do Maximus publiquei a origem da Ígnea e na próxima trarei o Extensor. Vale lembrar que o Maximus já foi publicado também em uma Grandes Encontros, do Samicler Gonçalves, e na francesa La Bouche du Monde, do Eduardo Barbier. As coisas vão caminhando...

Você usa muito o Estado do Pará como cenário pras suas HQs. Esse regionalismo ajuda nas vendas Brasil afora ou dificulta em alguma coisa?
Acho que nem ajuda e nem dificulta, embora eu já tenha ouvido por aqui que heroi paraense não tem nada a ver... mas paciência. O que não posso é escrever minhas histórias ocorrendo em cidades que não conheço ou nada tenham a ver com nossa realidade.

Como sempre, tem uma turminha preconceituosa na internet que adora falar mal de quadrinho nacional e você, assim como todos os artistas brasileiros, já teve de encarar gente assim.
Sim, sim.. tanto na net quanto frente a frente. Mas prefiro nem me estressar com esses babacas.


A primeira revista do Maximus saiu em janeiro de 2011, a n° 2 em maio de 2012 e a n° 3 em setembro do mesmo ano. Quais as principais dificuldades que você enfrentou pra produzir as revistas?
A de todo produtor independente: a falta de apoio. A 1ª edição eu suei muito correndo atrás de patrocínio, em vão. Tive que meter a mão no bolso mesmo para ver meu sonho realizado. A 2ª teve um hiato de mais de um ano, no qual eu quase desisti de publicar, mas afinal consegui alguns anunciantes para a capa, o que viabilizou a impressão da revista. A 3ª saiu em uma correria só, para ser lançada durante a Feira do Livro de Belém, mas também contou com o apoio de anunciantes. Acho que já posso dizer que a revista está se encontrando.



Vi no blog do Yangoverso que você produziu bonecos articulados e em chumbo do Maximus, além de papertoys* do personagem. Quem te ajuda nesses produtos? Eles estão a venda?
Na verdade são customizações que encomendo com alguns profissionais, nenhum está à venda. Os papertoys eu mesmo produzi, com base em alguns que encontrei pela net. Pretendo mais pra frente, produzir algumas estatuetas em série do heroi para comercializar.

Você usa muito a mídia local e a internet para divulgar as revistas. Propaganda é mesmo a alma do negócio?
Com toda certeza! Temos de nos fazer aparecer, mostrar nosso produto. Não tem sentido produzir algo e não dar a ele visibilidade. A Internet é um veículo maravilhoso de divulgação.

Você também disponibiliza HQs de seus personagens para download. O leitor conhecer de antemão os personagens ajuda nas vendas?
Acredito que sim. Se o leitor tiver a oportunidade de ler uma HQ online e achar interessante, tenho certeza que irá buscar sua versão impressa. Por mais interessante que seja uma webcomic, ela não se compara ao prazer de folhear uma revista.


O Estado do Pará tem grandes expoentes da nona arte como Joe Bennet, Jack Jadson e muitos outros. Você mantém contato com esse artistas?
Conheço praticamente toda a galera que faz quadrinhos em Belém: Bené (Joe Bennett), Jadson, Carlos Paul, Moyses Damasceno, Peter Vale, entre outros... O Bené e o Jadson, por exemplo, conheço a mais de 20 anos e sim, mantenho contato tanto com os profissionais quanto com os amadores do meio.

Ainda sobre a cena paraense de quadrinhos, tem muitos grupos de quadrinhistas por lá?
Tive a honra de ter sido membro-fundado do primeiro grupo de quadrinhos que se formou em Belém, nos anos 90, o Ponto de Fuga (já extinto), formado após uma oficina de quadrinhos com o Bené e o Gian Danton. Há alguns anos um novo grupo de formou, logo após um workshop com o quadrinhista Miguel de Lalor (que antes de se mudar para a França e trabalhar para a Dargaud fez parte do do Ponto de Fuga também). Parece-me que esse grupo, o Catarse, também já encerrou suas atividades.

E os eventos sobre quadrinhos, acontecem com frequência?
O primeiro evento oficial aconteceu em maio deste ano, o Muiraquicon, que trouxe alguns desenhistas de peso do mercado americano. Antes disso o que rolava eram mais exposições, oficinas e bate-papos.


Quem são seus aliados na produção das revistas?
Cara... Deus, em 1º lugar, minha esposa Cleidiane que me apoia sempre, meus amigos de longa data que se dispõem a transformar meus roteiros em quadrinhos, propriamente ditos: Emmanuel Thomaz, Marcio Henrique, Alex Barros, Fábio Nahon, Alexandre Nascimento, André Ciderfao e Carlos Paul.

Você já tentou apresentar o personagem para editoras fora do Brasil?
Não. Não é do meu interesse. Estou na luta por um quadrinho nacional forte, com autores e personagens fortes.

Você é formado em Direito pela UFPA. Exerce a profissão?
Não. Eu seria um péssimo advogado. Costumo dizer que não sou safado e mentiroso o bastante para isso (rsrsrs).

Pra finalizar, conta pra gente sobre aquela situação hilária da entrevista com o repórter fantasiado de Maximus.
A Record entrou em contato pedindo uma entrevista, o que eu aceitei, claro. Seria para o Balanço Geral local, com o “repórter maluco” Igor Monteiro vestido como o heroi. Hilário, já que o Igor é “meio” gordinho... A visita dele durou quase uma hora, gravando comigo, esposa, irmãos e sobrinhos, em uma sequência de cenas super engraçadas... deu no que deu (rsrsrs).

O Tinta Nankin agradece a você, Alan, por disponibilizar tempo pra responder nossas perguntas. Que o Maximus, e todos os outros personagens do Yangoverso, continue alçando grandes voos no mercado brasileiro de HQs.

Facebook de Alan Yango.
Yangoverso Quadrinhos.

_________________________
* Papertoy é um método de construção de modelos em 3D com papel, feitos em diversos pedaços separados em formato de polígonos, posteriormente cortados e colados. Com a internet, se tornou um hobby mundial.

30.11.12

Sant'anna da Feira - Terra de Lucas


Sábado, 1º de dezembro de 2012, às 19h no MAC Feira, lançamento do álbum em quadrinhos Sant´anna da Feira - Terra de Lucas, de Helcio Rogério e Marcos franco. Conta a trajetória de Lucas da Feira, escravo rebelde e vulto histórico da resistência de Feira de Santana, na Bahia. Mais informações no Blog do MAC.

27.11.12

Entrevista: ZILSON (Zeck) COSTA


Diga seu nome, idade, onde nasceu e onde mora atualmente.
Zilson Costa (Zeck). Nasci em São Luís e moro na região metropolitana da cidade, em Paço do Lumiar.

Lembra qual a primeira HQ que você leu?
Lembro muito de uma revista do Homem-Aranha que meu pai comprou pra mim na feira do Maiobão (bairro de Paço do Lumiar, região metropolitana de São Luís), quando eu era criança. Tinha o Duende Verde, os Executores e o Hulk. Mas a primeira revista que eu li foi uma do Fofão, que mamãe lia pra mim. Um dia, ela se cansou de ler a mesma revista e eu tive que me virar (risos)!

Qual desenhista\roteirista ou personagem era seu favorito nessa época?
Bom, nessa época, eu era fã dos personagens, em si. Mas quando comecei a realmente entender os quadrinhos, meus artistas favoritos eram principalmente o mestre John Buscema, seguido por John Byrne e o Romita Sr.

Como e quando você descobriu a aptidão pros desenhos?
Desde criança, eu era vidrado nos desenhos animados. Homem-Aranha, He-Man, Super Amigos, Tarzan...como eu ficava muito tempo em frente à TV, volta e meia ficava rabiscando. E sempre fui incentivado por meu pai a desenhar cada vez mais. Ele até fez uma moldura para um desenho do Conan que pintei há muito tempo.

Qual material você usa pra trabalhar? E qual você não recomenda?
Bom, passei a utilizar novamente um material mais profissional depois de receber um puxão de orelha do Ed Bennes, ao enviar testes de arte-final pra ele. Com o advento dos computadores, passei a dar menos importância aos originais. Utilizava até folhas de papel sulfite, formato A4, indo contra todos os ensinamentos de meus amigos e mestres, como Joacy Jamys, por exemplo. Agora, voltei a usar papel supremo 250 e papel 60 kg. Uso também pincel pêlo de marta nº zero, canetas nanquim 0.1, 0.2, 0.3, 0.4 e 0.8, além de esquadros e curvas francesas para arte-final. Para desenhar, uso uma grafite 0.7, com ponta macia 2B. O que NÃO usar? Sulfite A4, lápis nº 2 e caneta bic. Ufa!

Já fez algum curso de desenho pra desenvolver o traço?
Fiz, sim. Em 1996, entrei em um curso de desenho de anatomia, ministrado por Rogério Martins, grande artista plástico maranhense. Lá, conheci Joacy Jamys e a maioria dos meus companheiros de Fator RHQ. Após esse curso, também participei de um curso ministrado por  Joacy sobre a produção de quadrinhos e estudei anatomia com Binho Dushinka, outro expoente da arte maranhense. Bom, ainda estou longe, mas continuo estudando. Quem sabe um dia, a gente chega lá.

Você fez parte de um dos grupos de quadrinhistas mais produtivos do Maranhão, o Fator RHQ. Conta mais um pouco sobre o grupo.
Pois é. O Grupo surgiu justamente nesse curso ministrado por Rogério Martins. Fizeram parte dessa turma: Ricardo Pontes, Tony Machado, Bruno Azevêdo, Ademar e eu. Ao conversar com Joacy e começarmos uma amizade, descobrimos que era possível produzir quadrinhos de forma independente. Assim, resolvemos criar o grupo e produzir nossas próprias HQs. Nosso primeiro lançamento só ocorreu em 1998, após dois anos de conversas e reuniões. Mas o grupo conseguiu alguns méritos e o maior de todos foi ter participado de uma exposição em Portugal e ganhar até prêmio de Menção Honrosa com a revista Área de Mancha nº 1. 
Já chegamos a ter um número muito grande de membros. Entre eles estão Carlos Baima, Samyra, Djalma Lúcio, Gabriel Girnos, Diogo Henrique, Gilson César, Eduardo e Kelly. Nessa época, desenhei algumas charges para jornais de São Luís, ilustrei um livro de poesias intitulado “Travessia Sem Fim”, trabalhamos em conjunto na Feira do Livro do SESC, ilustrei uma cartilha em quadrinhos sobre consórcio para a AUVEPAR, participei de vários concursos de cartum no Brasil e no exterior. Inclusive, ganhei alguns prêmios como a Mostra Maranhense de Humor, onde em 2002, fui premiado como melhor cartum maranhense e várias menções honrosas. Com o tempo, o grupo se esfacelou e ficamos Tony Machado e eu na incubência de manter o selo do grupo. Foi quando recrutamos o artista Riccelle Sullivan para criarmos a revista Comicstation, que foi lançada com um cunho mais profissional, com personagens contínuos  e saiu em bancas. Durou oito números e até hoje foi a publicação independente maranhense que mais tempo esteve em bancas. Também participaram dessa fase Olavo Coelho e Rayanderson Oliveira. 

Vocês ainda mantém contato ou tem algum projeto em comum?
Bom, hoje o grupo continua produzindo e lançando material de quadrinhos, cada um com seu próprio personagem, mas mantendo o selo Fator RHQ.

E esse nome artístico, Zeck, como surgiu?
Bom, isso foi a partir de 1997, quando ocorreu o boom de artistas brasileiros no mercado americano. Eu tinha 17 anos e segui o exemplo dos artistas da época, que adotaram nomes americanizados, como Roger Cruz, Mike Deodato e Joe Bennet. Escolhi  Zeck, como referência a Zilson. Como assino Zeck, acabou ficando.

Quais personagens você criou e quais já foram publicados?
Bom, ajudei na criação do Capitão Brasil, que foi publicado na revista Área de Mancha. Também criei um personagem adolescente chamado Roberto, que só teve duas HQs publicadas na Área de Mancha e em um fanzine do Marcelo Maratt chamado DESATENÇÃO, simultaneamente.  Também fiz uma HQ do personagem Jeremias, que era o Homem-Mosquito, publicada no fanzine Vitamina HQ. Mas entre os personagens fixos, tenho o Homem-Caveira ,que publico continuamente em uma revista de mesmo nome e é o mais importante deles. Foi um personagem que criei quando ainda estudava e cursava a oitava série. As primeiras HQs do Homem-Caveira, inclusive, foram escritas nessa época. E no universo do Homem-Caveira, um personagem que brinca com o universo dos super-heróis, tenho o Homem-Poodle, Palhaço do Crime, Estrela Ponto Com e Legião Brasileira dos Super-Heróis. Inclusive, no ano passado, uma HQ do Homem-Caveira foi publicada em um fanzine  do Denilson Reis. E em 2010, fizemos uma parceria com o Chagas Lima.

Conta pra gente o calvário que é publicar revista própria no Brasil e, principalmente, no Maranhão.
É realmente muito difícil. Patrocínio? Complicadíssimo. Acabamos tendo que fazer tudo sozinhos mesmo. As dificuldades são imensas, até porque a maioria dos colaboradores tem outros empregos, não vivem de produzir HQs. Então, tenho que escrever, desenhar, colorir, imprimir, vender. Comprei uma máquina de Xerox pra mim e imprimo o miolo das revistas em casa mesmo. Mas a capa tem que ser feita em gráfica. Então, sai tudo do bolso mesmo. Mas continuamos brigando. Uma hora, dá!

Você tem formação acadêmica. Usa HQ como material didático na sala de aula? De que forma?
Sim, sim. O sétimo ano do ensino fundamental tem no currículo da disciplina Arte um módulo sobre Histórias em Quadrinhos. Então, há dois anos, desenvolvo um projeto com os alunos, onde eles lêem quadrinhos em sala de aula, assistem documentários e vídeos e produzem suas próprias HQs. Ao final do projeto, levo artistas maranhenses para conversar com os alunos sobre o assunto e apresentar originais. Sendo que os alunos previamente ficam conhecendo o trabalho dos artistas.

Os alunos assimilam mais facilmente o modo de aprender através das HQs?
Sim, inclusive a parte de leitura ajuda muito na compreensão textual e na criatividade. Além de influenciar na disciplina. E a ideia já está sendo adotada também pela professora de Língua Portuguesa do 6º ano.

E quanto aos diretores e demais corpo docente, eles impõem alguma barreira quanto ao uso das HQs em sala de aula?
De forma alguma. Eles inclusive apóiam no que é necessário. Temos um grupo muito unido, ainda mais porque trabalhamos na zona rural de São Luís.

Você também produziu artesanalmente o documentário QUADRINHOS PRODUZIDOS NO MARANHÃO. Fala pra gente sobre esse trabalho.
Pois é. Esse trabalho surgiu como uma maneira de homenagear meus amigos artistas, registrar a produção local e, principalmente, era material didático para minhas aulas. Então, convoquei caras que se destacam como grandes artistas de quadrinhos, tais como Beto Nicácio, Tony Machado, Riccelle Sullivan, Rafa Santos, Well Jun e, claro, Rom Freire. Claro que outros artistas excelentes ficaram de fora, mas tudo foi questão de tempo e disponibilidade. Gravamos em uma tarde, na casa de Tony Machado, com uma câmera digital comum, iluminação de uma luminária comum, tudo muito simples mesmo. Mas achei que os depoimentos estavam tão legais que decidi fazer algo a mais. Chamei minha mulher pra apresentar o documentário, produzi a música junto com meus amigos de banda, uma animação na abertura e tudo o mais. E pensei: “já que chegamos até aqui, porque não ir mais longe?”. Então, fizemos um lançamento no SESC, exibi em escolas como o Liceu maranhense e participei do Movimento Hotspot, onde fui selecionado entre os melhores, veja só.  Também divulgamos o documentário na TV local e está disponível no YoutubeBom, e foi isso. Um trabalho gratificante, onde presto homenagem a Joacy Jamys, aos quadrinhistas do maranhão, grandes amigos meus, um documento histórico e material didático para meus alunos. Acho que foi missão cumprida, apesar de dificílimo também.

Hoje em dia, todo desenhista cobiça uma vaga no concorrido mercados dos comics norte americanos. Você já fez testes pra lá? E o mercado nacional?
Fiz teste de arte-final para o Ed Bennes Studio e para a Turma da Mônica. Não consegui trabalho com eles ainda, mas isso me rendeu dicas preciosas para melhorar meu trabalho. Foi a primeira vez que fiz teste para o mercado, pois eu só pensava em desenhar minhas próprias HQs, visto que tenho um emprego fixo. Fiz também um teste de desenho para o Rascunho Studio, mas ainda não recebi resposta. Mas continuo treinando e produzindo. Não tem outro jeito para se profissionalizar. E ainda quero sim, trabalhar profissionalmente com quadrinhos, seja no mercado americano, europeu ou nacional.

E os novos projetos?
Lançaremos ainda em novembro de 2012 a edição nº 4 do Homem-Caveira, com uma história que é uma brincadeira com o personagem Jaspion. Também temos a edição nº 1 da revista Lápide, com teor mais de suspense e terror. As edições nº 5 e 6 do Homem-Caveira estão a cargo de dois ótimos artistas locais: Rafa Santos e Rayanderson Oliveira. E a edição nº 2 da Lápide está em produção a cargo de Wallace Rodrigues. E atualmente, estou desenhando uma HQ para o selo Novo Sistema, de Riccelle Sullivan, com um personagem do universo do Homem-Camaleão. E também estou buscando conseguir trabalho profissional no mercado de HQ’s. Bom, é isso. E vamos em frente!

Além do trabalho, estudo, produção de documentário e HQs, você ainda arruma tempo pra tocar rock com as bandas Bad Fellas e Os Transados. Conta pra gente sobre elas.
Pois é. Isso é outra loucura. Desde 1998 que toco guitarra e violão. Então, chamei uns amigos pra formar uma banda de rock e tals. Isso foi em 2002, quando tocávamos na igreja católica. A banda inicialmente se chamava Crisálida. Nessa época, tocávamos covers do Black Sabbath, Iron Maiden, Legião Urbana, Titãs e tudo o mais. Gravamos uma demo, participamos de concurso da TV Mirante, gravamos clipe no Betto Pereira (programa da variedades local) e tocamos em tudo que é lugar. Mas a banda acabou em 2006. Em 2007, junto com o Francisco Almeida, um grande amigo, criamos a banda Os Transados, com músicas próprias em outras vertentes. Temos de Bossa nova a Reggae e Rock antigo, a lá Elvis Presley e Raul seixas. Desde os tempos de Crisálida, fazíamos um Tributo a Raul e os Transados melhoraram esse show, que acontece todos os anos. Temos também uma demo intitulada Ritmos Quentes. É uma grande piada, um trabalho mais solto, sem pressões. Já tocamos até seresta como Os Transados (risos)!
Já a banda Bad Fellas é uma continuação do trabalho com a Crisálida, só que, obviamente, com mais qualidade. A proposta é tocar covers de grandes bandas como Iron Maiden, Black Sabbath, Mettallica e Judas Priest, além de músicas próprias, claro. Temos algumas já gravadas como demo, mas estamos acertando os ponteiros para gravar em um estúdio profissional, gravar um clipe e seguir em frente também. Nessa banda, temos Jeferson Nogueira na guitarra, Marcus Diego no baixo, Nilson Filho na bateria, Zilson Costa (eu) na guitarra e Vitor Câmara nos vocais. Esse é um trabalho mais “sério”, vamos dizer assim. Bom, é isso. Tento fazer todas essas coisas da melhor maneira possível. Continuar estudando e correr atrás dos sonhos é o mais importante. O resto, vem na hora certa. Agradeço muito a você, Rom Freire, pela oportunidade e parabéns pelo ótimo site. Sucesso na sua carreira, grande amigo. Um grande abraço.

Zeck, o Tinta Nankin agradece a dedicação (e a paciência) em responder tantas perguntas e continue com o grande trabalho que você faz nos quadrinhos, na sala de aula e nos palcos. Abraço.